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Cartas de amor entre meninos
 
Terça, 25 de Maio de 2010  
 

Quem sou eu? Passei os últimos dez meses em busca dessa resposta. Dizem que é a crise existencial de quem embarca na “casa do 30”. Pode até ser. O fato é que durante três anos ininterruptos escrevi artigos quase diários para mais de vinte jornais em todo Brasil falando sobre Política (que particularmente começo a achar monótona, imutável e vazia como é praticada no nosso país) e, vez ou outra, dividindo minha vida pessoal com os leitores. Fiz disso a minha vida. Nesses dez sôfregos meses, abandonei-os e não escrevi uma linha sequer. Fiquei “out” e por isso, em primeiro lugar, peço minhas escusas. Por que voltei? Digamos que estou começando a aprender como se escrevem as verdadeiras cartas de amor. Então vamos lá!

Moro no Rio de Janeiro, “cidade maravilhosa”, trânsito infernal, garotas e garotos de Ipanema, alagamentos com qualquer garoa, Cristo Redentor e Copacabana. Mesmo cercado de amigos, colegas, conhecidos e puxa-sacos, estava sempre sozinho. Gosto de meninos, de chocolate e de Fórmula 1. Dizem que sou “bonitinho”, mas sou chato. Dizem que sou competente, mas não sou humilde. Dizem que sou sincero, mas vivo “fechado em copas”. Não gosto de baladas, choro em filmes românticos, adoro vinhos vagabundos e insisto usar cabelos arrepiados como se ainda tivesse meus 20 anos. Sou a contradição em pessoa. Clássico.

Há duas semanas me perdi completamente. Ou melhor, me achei. Em meio a e-mails e recados virtuais de um domingo, Dias das Mães longe da minha Mãe, encontrei pela segunda vez um “depoimento” de um rapaz da minha idade, de São José dos Campos, interior de São Paulo, aspirante jornalista, fã da Cher e adorador dos Cavaleiros do Zodíaco. Fui “farejar”. Fiquei meio tonto. É um típico ariano narcisista, cercado de devotados “adoradores” que ele faz questão de colecionar, monopolizador de atenções, sensível, carente e tragicamente paradisíaco. Encrenca na certa, pensei. Mas e daí?! Que seria da vida sem emoções? Respondi sua mensagem.

Desde então, nunca mais dormi. Literalmente. Através de um conhecido programa de troca de mensagens instantâneas, nos falamos invariavelmente todos os dias... e noites... e madrugas inteiras. Conversamos sobre a vida, trocamos experiências, bebo meu vinho e ele toma sua Coca-Cola. Relato minhas céticas opiniões cinematográficas e políticas e ele me ensina a apreciar vídeos do desenho japonês e a ficar fascinado por Cher cantando “Just Like Jesse James”. Eu faço um hiperativo sentar na poltrona por horas a fio e aprender lições de diplomacia e ele me leva à lona cantando suavemente “Meu Eu em Você”. Ele se encolhe no canto quando percebe que achei alguém bonito e eu faço cara feia quando percebo que ele está dando atenção a “outras pessoas”. Eu durmo pensando nele, agarrado à minha almofada. Ele acorda pensando em mim, enviando imediatamente um torpedo de “bom dia” para o meu celular.

Imaginem uma daquelas mesas palacianas enormes, de séculos passados, com trinta e duas cadeiras e um casal sentado, cada um em uma extremidade, com a internet servindo-nos de mordomo, conduzindo, de um lado para o outro, cartas de amor seladas à cera. E esse casal apenas conversa há mais de quinze dias. Conversa e afeto. Conversa e apreciação. Conversa e admiração. Brigas, choros e “churumelas”. Sonhos, devaneios e planos. Carinho e pieguices. Verdadeiras cartas de amor, só trocadas em um passado remoto da humanidade, revividas, revisitadas e resistentes ao teste do tempo. Ridículas? Diz o poeta que “as cartas de amor, se há amor, tem de ser ridículas”.

Onde isso tudo vai dar? Só o tempo poderá dizer. Já o desejo de cada um, esse sim é um cavalo selvagem. Em breve vou visitá-lo em São José dos Campos e esse primeiro encontro é mais aguardado que o último episódio de “Lost” ou a aposentadoria de Rubens Barrichello. A única coisa que eu sei nesse momento é que estou me sentindo o Richard Gere em “Uma Linda Mulher”, ou Hugh Grant em “Um Lugar Chamado Notting Hill”, ou ainda Jude Law em “Closer”: tudo que importa é ter a Julia Roberts eternizada como par romântico. Confesso que pensei usar Heath Ledger e Jake Gyllenhaal no impressionante “Brokeback Mountain”, mas achei que ficaria “viado” demais (Millôr Fernandes já disse: “quem escreve "veado" é que é viado!”).

Ao longo desses memoráveis dias, noite e madrugas, estamos construindo em “cartas” um amor novo, que estão sendo cuidadosamente guardadas no relicário dessa nossa história moderna. E por que não registrar isso publicamente? Só assim foi possível conhecer as míticas histórias de Apolo e Jacinto, de Aquiles e Pátroclo, de Alexandre, o Grande, e Hephestion. Penso que o mundo moderno, apesar de insistir manter uma falseada aparência e busca pelo politicamente correto (tenho ojeriza dessa expressão), ainda carece de exemplos reais das possibilidades do amor, indiferente às orientações sexuais ou às convenções sociais ainda impostas. Nesses dias, aprendi que ser humano implica ser humano e que amar verdadeira e incondicionalmente é dar-se conta de que o encontro que interessa transcende a realidade... é o encontro de almas.

Como está chegando o Dia dos Namorados, não há melhor época para retomar meu verbo junto aos leitores e dividir essa troca de cartas de amor entre meninos. Pode até ser que os mais conservadores tenham a ousadia de destilar críticas homofóbicas ou gramaticais ou que os mais céticos se recusem a acreditar na verossimilhança desse roteiro. Só posso lamentar... por eles. Sou eu que recuso-me a acreditar que os diamantes não sejam eternos. E nesse exato momento, nessa carta pública de amor entre meninos, sinto-me o dono da joalheria inteira. “I"m gonna shoot you down, Jesse James!”

 


HELDER CALDEIRA - Articulista, Palestrante e Conferencista
Rio de Janeiro - RJ
heldercaldeira@estadao.com.br


 
 
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